Retrato aqui o amigo João
Que verga, mas não quebra
Fala sempre com atenção
É isto fugir à regra?
Antes quebrar que torcer…!
Não fugir do seu copinho
Que importa o muito beber!
Se chega sempre ao seu ninho.
Antes o vejamos tal qual é
Do que muito ensimesmado
Desdenha sim…, da água-pé
Porque o não torna animado.
Ai João quem tu és
Sem bebida espiritual…
Não importa trocar os pés
O que importa é o ritual.
Uma, por outra vez
Dá tempo para esperar
Mas como ninguém se fez
Lá vai outro a escorregar.
A sede não acaba aqui
O licor é dos melhores
Não saio sem outro, daqui
N’outros lados há piores.
Esta ronda do João
No dia a dia, levada
É culpa do criador
E das uvas da latada.
Só dou a quem quero
E tiro quando quero
A arte de saber amar
De saber beijar
Que no beijo está ciência
No amor a paciência
De encontrar
De não saber onde estar
Mas voar
Em céu aberto
Do amor em liberdade
Que é sexo, carinho, dedicação
Em profusão
Sentimento que tonteia
Que nos prende
Como mosca numa teia.
Resmas de papel em branco!
Poeta feito caixeiro, faz contas,
Escreve no branco? – Não.
Suja o branco?
Rabisca no branco?
Não, não e não.
Fica em branco,
No sempre branco?
Talvez...
Poeta em branco,
É poeta sem cor,
É o desânimo,
É o saber e não saber.
Nestas longas férias,
Em que existo,
Ignorando o dia,
E a noite que não fala,
Escrevo para mim,
Neste canto que exala,
O mofo e o bafio,
Escrevo a frio, sem descanso,
Num desafio com a morte,
Que a vida não sendo desgarrada,
Mas pensada,
Mais se parece com a morte incorporada.
Homenagem na reedição do livro, no ano de 2004
CMVNP
Terras do Alto Paiva
Cónego Dr. Manuel Fonseca da Gama
Memória histórico-geográfica e etnográfica do concelho de
Vila Nova de Paiva
1940
*
A serra na roda do ano, como nas antigas Horas, com malhadas, matanças, serões, o presépio completo de seus zagais, adueiros, mulheres de capucha e roca, homens de palhoça e polainos, tipos célebres e pessoas importantes, o juiz de Barrelas, o Manuel Morais, até os amigos Campos, netos de um dos matadores da linda Inês.
Introdução de Aquilino Ribeiro
*
Nasci em região alta, varrida de miasmas, erguida dos charcos, lavada das águas, purificada das neves, tonificada por aquele ar leve, bem oxigenado, que alimenta a vida como aviventa as brasas.
Em pequeno, quiseram convencer-me de ter nascido " em ruim ninho ", habituado aos sarcasmos dos gracejadores do vale, impantes da sua superioridade, porque à sua sorte cabiam a mais meia dúzia de azeitonas com outras tantas canadas de vinho.
Mas, quando um dia me é dado sair de casa, atravessar a fronteira e passar os olhos por terras estranhas, ao compara-las com a minha, fui impelido a levantar os olhos e as mãos para o Céu, e então murmurei bem sentidamente: " perdoai-me Senhor, por ter julgado que não fôras tão generoso com a minha terra, pois a fizeste um Paraíso! "
Tinham-me enganado!
...
Chegada a hora da despedida, viro os olhos uma e mais vezes para trás com viva saudade, com aquela saudade que se sente pelas coisas que se amam e que jamais nos enfadam!
Detenho-me, embevecido, a olhar um horizonte sem limites e só à força me desprendo dali. Fecho então os olhos para ver melhor. Na minha frente passa o luzido cortejo das figuras do passado que desenterrei, do presente que me assistem e do futuro que perscrutei. Sorriem-me, e esse gesto de graciosa cortesia é a minha recompensa.
Ouço depois a discussão acalorada dos seres que se animam. Em noite serena e luarenta de Janeiro, escuto a voz marulheira das águas que rabujam com rochedos e quebradas ou repreendem peixes que, traquinas, fogem de suas lorgas, ou conversam com mais intimidade e doçura com os campos onde se deitam e adormecem.
Para outro lado surpreendo o altercar do suão com os pinhais que se não calam e dão sempre aos fungões, quando no poleiro o galo-pimpão bate as palmas e saúda num quem é que lá vem! A estrela da manhã que se levanta.
A água das fontes canta no tanque e cochicha no rêgo das hortas, na hora em que relas e sapos, ralos e grilos, calhandras e rouxinóis preparam o concerto da noite.
Uivam os cães, cala a frauta o zagal, sofreia-se a respiração, quando da torre ou do campanário o sino abre a larga bocarra para gritar sobre as casas, montes e vales o seu pregão, rádio-altissonante da aldeia, que dá ao povo a notícia mais sensacional do que nela se passa ou vai passar.
E a saudade que bate à porta do coração, tudo isto recorda, aviva e faz de novo viver...
(Extracto do livro)