Quinta-feira, 17 de Abril de 2008
O RETRATO DO JOÃO

 

 

 

Retrato aqui o amigo João

Que verga, mas não quebra

Fala sempre com atenção

É isto fugir à regra?

 

Antes quebrar que torcer…!

Não fugir do seu copinho

Que importa o muito beber!

Se chega sempre ao seu ninho.

 

Antes o vejamos tal qual é

Do que muito ensimesmado

Desdenha sim…, da água-pé

Porque o não torna animado.

 

Ai João quem tu és

Sem bebida espiritual…

Não importa trocar os pés

O que importa é o ritual.

 

Uma, por outra vez

Dá tempo para esperar

Mas como ninguém se fez

Lá vai outro a escorregar.

 

A sede não acaba aqui

O licor é dos melhores

Não saio sem outro, daqui

N’outros lados há piores.

 

Esta ronda do João

No dia a dia, levada

É culpa do criador

E das uvas da latada.

 



publicado por Produções Anormais - Albufeira às 13:58
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COMO MOSCA NUMA TEIA

  

 

Só dou a quem quero

E tiro quando quero

A arte de saber amar

De saber beijar

Que no beijo está ciência

No amor a paciência

De encontrar

De não saber onde estar

Mas voar

Em céu aberto

Do amor em liberdade

Que é sexo, carinho, dedicação

Em profusão

Sentimento que tonteia

Que nos prende

Como mosca numa teia.

 



publicado por Produções Anormais - Albufeira às 13:48
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Sexta-feira, 30 de Março de 2007
POETA EM BRANCO

 

 

 

 

Resmas de papel em branco!

Poeta feito caixeiro, faz contas,

Escreve no branco? – Não.

Suja o branco?

Rabisca no branco?

Não, não e não.

Fica em branco,

No sempre branco?

Talvez...

Poeta em branco,

É poeta sem cor,

É o desânimo,

É o saber e não saber.

 

 

 



publicado por Produções Anormais - Albufeira às 17:16
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Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2006
LONGAS FÉRIAS

 

 

Nestas longas férias,

Em que existo,

Ignorando o dia,

E a noite que não fala,

Escrevo para mim,

Neste canto que exala,

O mofo e o bafio,

Escrevo a frio, sem descanso,

Num desafio com a morte,

Que a vida não sendo desgarrada,

Mas pensada,

Mais se parece com a morte incorporada.

 

 



publicado por Produções Anormais - Albufeira às 17:31
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Sexta-feira, 3 de Novembro de 2006
MEMÓRIA E CULTURA

 

 Homenagem na reedição do livro, no ano de 2004

CMVNP

 

Terras do Alto Paiva

Cónego Dr. Manuel Fonseca da Gama

Memória histórico-geográfica e etnográfica do concelho de

Vila Nova de Paiva

1940

*

A serra na roda do ano, como nas antigas Horas, com malhadas, matanças, serões, o presépio completo de seus zagais, adueiros, mulheres de capucha e roca, homens de palhoça e polainos, tipos célebres e pessoas importantes, o juiz de Barrelas, o Manuel Morais, até os amigos Campos, netos de um dos matadores da linda Inês.

Introdução de Aquilino Ribeiro

*

Homem da Beira

Nasci em região alta, varrida de miasmas, erguida dos charcos, lavada das águas, purificada das neves, tonificada por aquele ar leve, bem oxigenado, que alimenta a vida como aviventa as brasas.

Em pequeno, quiseram convencer-me de ter nascido " em ruim ninho ", habituado aos sarcasmos dos gracejadores do vale, impantes da sua superioridade, porque à sua sorte cabiam a mais meia dúzia de azeitonas com outras tantas canadas de vinho.

Mas, quando um dia me é dado sair de casa, atravessar a fronteira e passar os olhos por terras estranhas, ao compara-las com a minha, fui impelido a levantar os olhos e as mãos para o Céu, e então murmurei bem sentidamente: " perdoai-me Senhor, por ter julgado que não fôras tão generoso com a minha terra, pois a fizeste um Paraíso! "

Tinham-me enganado!

...

Mulher da Beira

Chegada a hora da despedida, viro os olhos uma e mais vezes para trás com viva saudade, com aquela saudade que se sente pelas coisas que se amam e que jamais nos enfadam!

Detenho-me, embevecido, a olhar um horizonte sem limites e só à força me desprendo dali. Fecho então os olhos para ver melhor. Na minha frente passa o luzido cortejo das figuras do passado que desenterrei, do presente que me assistem e do futuro que perscrutei. Sorriem-me, e esse gesto de graciosa cortesia é a minha recompensa.

Ouço depois a discussão acalorada dos seres que se animam. Em noite serena e luarenta de Janeiro, escuto a voz marulheira das águas que rabujam com rochedos e quebradas ou repreendem peixes que, traquinas, fogem de suas lorgas, ou conversam com mais intimidade e doçura com os campos onde se deitam e adormecem.

Para outro lado surpreendo o altercar do suão com os pinhais que se não calam e dão sempre aos fungões, quando no poleiro o galo-pimpão bate as palmas e saúda num quem é que lá vem! A estrela da manhã que se levanta.

A água das fontes canta no tanque e cochicha no rêgo das hortas, na hora em que relas e sapos, ralos e grilos, calhandras e rouxinóis preparam o concerto da noite.

Uivam os cães, cala a frauta o zagal, sofreia-se a respiração, quando da torre ou do campanário o sino abre a larga bocarra para gritar sobre as casas, montes e vales o seu pregão, rádio-altissonante da aldeia, que dá ao povo a notícia mais sensacional do que nela se passa ou vai passar.

E a saudade que bate à porta do coração, tudo isto recorda, aviva e faz de novo viver...

 

(Extracto do livro)

 



publicado por Produções Anormais - Albufeira às 23:17
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